Os sentidos da maternidade para empregadas domésticas gestantes


* Produzido em 2006.

Resumo :

O presente trabalho faz parte da dissertação de mestrado em Psicologia sobre os sentidos da maternidade para mulheres empregadas domésticas que estavam vivenciando a gestação. Teve como foco a investigação e a discussão sobre os sentidos atribuídos a maternidade por essas mulheres, considerando as questões de gênero, classe social, etnia e contexto histórico. As informações foram obtidas por meio de entrevistas semi-estruturadas e analisadas a partir do aporte teórico de Vygotsky. A realização da pesquisa na região sul do país permite analisar como as mulheres das camadas populares atribuem sentidos a maternidade. Possibilita a reflexão sobre o discurso social, que referencia a maternidade como um momento de beleza e poesia, de cuidados delicados a gestante, como alimentação, descanso físico, enfim a gestação como um período especial de preparação para o nascimento da criança e da função materna. Seria essa a realidade das mulheres das camadas populares.

Palavras chaves: maternidade, mulheres, camadas populares.

Introdução

A maternidade, entendida em seu processo histórico de construção, tem permitido nomear a mulher e mãe de diferentes formas, da inferior à perfeita, de papel secundário na procriação à senhora do seu corpo e do destino de sua prole em gestação. Para Del Priore, no período do Brasil Colonial: “A maternidade servia ainda para preservar as diferenças de gênero, mantinha papéis ancilares tradicionalmente exercidos por mulheres”(1995, p.28):

Os discursos foram lentamente e insistentemente incutindo na sociedade a função exclusiva da maternidade, sendo que essa não poderia estar desvinculada do matrimônio. Del Priore demarca que a tarefa de educar os filhos era responsabilidade da mãe, “[...] por seu comportamento devotado, regrado e piedoso valorizar a vida familiar através de sua relação com seus filhos que as demais possibilidades de convivialidade parecessem vazias” (1995, p.320).

Banditer (1985), em sua obra: “O mito do amor materno”, coloca que até o fim do século XVIII, as taxas de mortalidade infantis eram muitas elevadas, sendo esse um argumento utilizado para explicar o desapego e a indiferença de pais e mães em relação aos filhos gerados. Contudo, a autora pontua que mesmo em séculos anteriores há relatos de mães camponesas que embalavam seus filhos falecidos e que o amor materno não é uma criação do século XVIII e XIX, não sendo, no entanto, uma atitude universal. O amor materno, ou instinto materno pode ser considerado como um sentimento humano, que está sujeitado às relações reais de sobrevivência e regras de uma sociedade; portanto, é um sentimento frágil e imperfeito que de acordo com o contexto sócio-histórico se manifesta ou não.

Para Scavone (2001), que analisa o movimento feminista das décadas de 1960-1970, a experiência da maternidade é a chave para explicar a dominação de um sexo sobre o outro e é reconhecida como um “handicap”, um defeito natural da mulher. Em um segundo momento do movimento feminista, surge a "negação do handicap", a maternidade passa a ser vista como um poder insubstituível, tendo um lugar nas Ciências Humanas e Sociais referenciado como fonte de poder. O terceiro momento é o da "desconstrução do handicap", ou seja, não é a maternidade que determina a posição social das mulheres, mas as relações de dominação que atribuem um significado social à maternidade. Foi com a introdução do conceito de gênero nas ciências sociais que se tornou possível compreender a maternidade como relacional. Esse conceito permitiu abordar a maternidade como símbolo de um ideal de realização feminina, ou como opressão da mulher, ou como poder, uma vez que há inúmeras interpretações de um mesmo símbolo.

A realidade social do século XXI exige a busca constante de novas formas de relações humanas, incluindo-se a maternidade. Este emaranhado de busca de sobrevivência pelas camadas populares e de qualidade de vida pelas camadas médias e altas, leva ao surgimento de uma variedade crescente de tipos de mães. A modernidade e os avanços científicos dos métodos anticonceptivos possibilitaram a alternativa de opção e a escolha reflexiva da maternidade, no entanto, o acesso a essas possibilidades depende, sobremaneira, do acesso às informações. E, as diferenças econômicas, culturais e as relações de gênero estruturam e são estruturadas pelas relações de dominação e exploração. E, nesse contexto o acesso as informações são dificultadas e a maternidade ainda compromete as mulheres, separa-as socialmente dos homens e pode legitimar a dominação masculina.

Esse artigo[1] é um recorte de pesquisa que pretendeu discutir os sentidos que mulheres empregadas domésticas na região sul do Brasil atribuem à maternidade, considerando o contexto histórico cultural.

Para melhor delinear o quadro de pesquisas realizadas sobre as empregadas domésticas, foi realizada busca no Scielo (www.scielo.org.br ) com os descritores: mulher-trabalho doméstico / trabalho doméstico / emprego doméstico / empregada doméstica; no Banco de Teses da Capes (www.capes.gov.br ) e na Biblioteca Virtual da Psicologia (www.pol.org.br ) foi utilizado o descritor “empregadas domésticas”, no mês de agosto de 2003, sendo refeita esta busca no mês de janeiro de 2005. A revisão de literatura demonstrou que a temática maternidade – mulheres das camadas populares, não tem sido pesquisada na psicologia observando-se as especificidades de camadas sociais, gênero, raça e etnia.

A única produção encontrada relacionando especificamente maternidade e empregada e doméstica (Camargo, 1992), refere-se à maternidade da patroa e de como a empregada doméstica se faz presente nessa relação mãe-filho. Considerando que há 5,3 milhões de mulheres nessa ocupação é pertinente considerar a maternidade relacionada a camadas sociais, nessa situação as camadas populares. Refletir sobre a maternidade das mulheres empregadas domésticas é corresponde, pela representatividade no contexto brasileiro[2], a reflexão sobre a maternidade nas camadas populares.

Método

Foram realizadas cinco entrevistas com mulheres que se identificavam como empregadas domésticas e estavam vivenciando sua gestação. Essas mulheres residiam em dois municípios de médio porte da região sul do país. A identificação dessas mulheres ocorreu por meio de informações de Unidades de Saúde. A pesquisadora fez o contato nas residências das empregadas domésticas, elas aceitaram prontamente participar das entrevistas, as entrevistas foram realizadas em horário definido pelas entrevistas em suas residências.

As informações das mulheres entrevistadas foram analisadas mediante a técnica de análise do conteúdo do discurso, com o objetivo de buscar o sentido, ou os sentidos das falas obtidas nas entrevistas. Tomou-se por base a matriz teórica de Vygotsky, que compreende o sujeito como histórico-cultural, e, ainda, considerou-se como suporte as discussões sobre as relações de gênero[3].

As informantes que estavam vivenciando a partir do segundo trimestre de gravidez, nesse estágio de desenvolvimento da gravidez, a mulher experiencia com mais intensidade a presença do feto, por seu tamanho e pela percepção dos movimentos intra-útero do mesmo. É nesse período que a gravidez torna-se mais evidente para os outros (que convivem com as mulheres gestantes, incluindo patroas e patrões) pelo volume do ventre materno.

As informantes: Joana[4], 26 anos, casada, natural da região sul do país, casada, ensino fundamental incompleto (5ª. Série), religião católica, mãe de duas crianças - uma de cinco anos e outra de sete, sexto mês de gestação, trabalhava trabalha como empregada doméstica sem registro em carteira de trabalho. Sua mãe foi “enérgica” na educação, recorria à vara de marmelo para colocar limites nos filhos e na adolescência não permitia que as filhas mulheres saíssem sozinhas.

Maria, 22 anos, casada, natural do interior da região sul do país, ensino fundamental incompleto (4ª. Série), religião católica, mãe de uma filha de um ano e nove meses e de um menino de quatro anos, da sua primeira união conjugal, nono mês de gestação. Diarista não registrada, em três residências fixas, o que caracteriza vínculo empregatício. Sua mãe não era de “ficar corujando os filhos” (sic), mas ensinou-os a trabalhar. O trabalho atravessa sua vida de forma marcante.

Janete, 29 anos, casada, mãe de um filho de dois anos e de uma filha de dez anos que deu para adoção, religião católica, ensino fundamental incompleto (3ª. Série), natural da região sul do país, sexto mês de gestação. Empregada doméstica, com contrato registrado na gestação, gestante no sexto mês de gravidez. Ela percebe e significa sua mãe como uma pessoa forte, inteligente e muito amorosa que procurava incentivar os filhos a serem pessoas de bem.

Marlene, 31anos, casada, está grávida do primeiro filho, religião católica, ensino fundamental completo, natural da região sul do país, sétimo mês de gestação. Empregada doméstica com contrato formal de trabalho efetivado no sétimo mês de gravidez. Sua mãe lhe abandonou com menos de cinco anos de idade.

Lúcia, 23 anos, casada, natural da região sul do país, um filho de três anos, religião evangélica, 6ª. Série do ensino fundamental, cursando supletivo, sexto mês de gestação. Empregada doméstica com contrato registrado durante a gestação. Ser mãe foi sua maior realização, quer ser uma boa mãe como a sua foi para ela.

A construção do sentido da maternidade a partir da relação com as mães.

Falar de mulheres e de mães no sul do Brasil faz com que se tenha claro, como diz Pedro (2001), que não é possível traçar um perfil único que a distinga das demais regiões brasileiras. É preciso considerar, no entanto, as diversidades que atravessam os diferentes períodos históricos, as etnias e classes sociais nessa região.

A formação do sul do Brasil é caracterizada por um grupo racial mais numeroso que o negro, o branco de origem européia, sendo vinculado à pequena propriedade, como nos casos de Maria e Joana, que viviam em áreas rurais. No entanto, a etnia dessas mulheres é denominada por elas de “brasileira”, ou seja, há uma tendência dos grupos populares de perderem a identificação com suas gerações anteriores.

Os depoimentos das informantes acerca de suas mães trazem claramente o quanto essas mulheres consideram a função da mãe como importante e central em suas vidas. São as mães que oferecem referências de trabalho, de educação e de disciplina, bem como são elas que dominam as relações familiares, ditando quando ou onde os filhos podem ir ou não.

Na fala de Joana: “Só que ela era muito enérgica. Ah! Ela agora não, antes ela erguia na vara, mesmo. (...) Era na varinha de marmelo!”, é possível perceber que ela não significa o seu relacionamento com a mãe de forma negativa, mas demonstra que sente que ela exercia uma atitude enérgica. O uso da vara de marmelo era freqüente por famílias de origem européia no sul do país, para demonstrar limites por meio da dor,